Para quem não conhece a história da Lorena, de 12 anos, um breve resumo: a pequena passou por uma cirurgia no cérebro para retirar um tumor maligno, descoberto em 2014, e agora faz sessões de radioterapia e quimioterapia. Depois da retirada do tumor, Lorena criou um canal (carecaTV) de vídeos no YouTube, pois seu sonho sempre foi ter um canal de sucesso. Após se tornar conhecida nacionalmente, ter sua história ser mostrada no Fantástico, e milhões de inscritos em seu canal, o Careca TV foi hackeado. Sua conta foi invadida e seus vídeos foram deletados. Tudo sumiu.
Hackearam um sonho. É assustador e quase inacreditável que alguém tenha hackeado o sonho de alguém. Sim, o sonho. Lorena não queria muito. “O meu sonho sempre foi ter um canal de sucesso”. Não é muito, diante de tantas situações difíceis na meninice daquela vida – e de sua família.
Tenho dó. Não da Lorena, mas do hacker. Alguém que poderia ter utilizado o seu conhecimento para fazer o bem, mas, ao contrário, preferiu utilizá-lo para fazer o mal. Questionei: como alguém tem coragem de invadir um sonho? Pensei, mas não consigo compreender. É mais que um crime. É invadir sonhos, quebrar expectativas. Tenho dó… dele, o hacker.
“Foi um choque, né, quase pior que quando eu soube que tava com câncer. [Por quê?] Ah, porque virou tipo uma parte da família, o canal (…) Eles deviam usar isso pro bem, não pra hackear o canal de quem não fez nada. Mas… já foi”, disse Lorena. Já a mãe da menina, Fiorella, disse que “parecia um castelo de área que você faz e vem uma onda e derruba tudo”.
Felizmente, o castelo foi reerguido. E Lorena completa. “Eu só queria dizer: se esse [canal novo] for hackeado, tomara que não… mas se for, eu faço outro. Se o outro for, eu faço outro. Se o outro for, eu faço outro… eu vou fazendo”. Ao ser questionada pela jornalista se ela não iria desistir, a menina responde: “Não vou, nunca”.
Devido à cirurgia, Lorena ficou com voz fina e fala um pouco lento. “Eu sou careca – olha que careca linda – porque eu tive câncer, mas já não tenho mais. Por conta da cirurgia eu fiquei com a voz fina e falo um pouco lento. E, às vezes, eu dou uma tremidinha, mas não liguem tá? Eu sou normal. Eu ainda não estou andando. Vou andar novamente. Só não sei quando, mas eu vou”, disse Lorena.
A pequena disse que não gosta que sintam dó dela, pois é igual a todo mundo. Mas, na verdade, ela não é. E não foi o tumor que a diferenciou, mas os sonhos que nela permanecem. Diante de um mundo tão marcado pelo ódio e que, por tantas vezes, se revela tão cruel, tão marcado por guerras, pelo extremismo e pela morte, chego à conclusão de que não é dela que eu sinto dó. Apesar de tantos desafios em tão pouca idade, a meninice de Lorena revela algo grandioso: nela, sobra esperança.

